domingo, 9 de outubro de 2011

APRENDENDO COM UM PINGUIM

Dia desses, já entediado de tanto esperar para ser atendido pela médica, abri uma dessas revistas sobre o mundo animal que sempre estão presentes ao lado do sofá da sala de espera. Meu dia não foi dos melhores, não estava satisfeito comigo mesmo, tinha brigado com minha mulher e meu patrão tinha me dado uma bronca ‘daquelas’. Ele disse que não agüentava mais meus atrasos. Por que raios eu não consigo acordar, mesmo após o despertador tocar quatro vezes?
Eis que, na revista, me deparo com a imagem de um pinguinzinho, olhando para água. Ele parecia chocado com o que via. Imagino o que se passou na cabeça dele ao ver seu reflexo na água. Pinguins, ele já tinha visto vários. Não acho que ele estaria tão fissurado só por ver mais um de sua espécie. A impressão que eu tive foi a de que ele estava admirado com o que via. Meu nome foi chamado para ser atendido. Sorte a minha, parei de ficar delirando com fotos da revista de animais.
Chegando em casa depois desse dia tão cansativo, deixei minha chave na prateleira em frente à porta, tirei meu traje formal, tomei banho e finalmente pus minha confortável samba-canção. Peguei o barbeador para tirar aquela maldita barba que eu não sabia como crescia tão rápido. Mas quando me olhei no espelho, acho que me vi de uma forma diferente. Não parecia que eu estava me vendo. Sim, era um homem com cara de cansado, mas que achei tão bonito... Isso me lembrou o pequeno animal que vi na revista, comecei a reparar em mim, como ele fez ao olhar-se na água. Tentei enxergar minhas características positivas, e me avaliar dos pés à cabeça, de aparência e de pessoa, mas com os olhos de quem quer enxergar algo belo no que vê. Nossa! Há quanto tempo eu não fazia isso. Eu acho que no período de um ano, no mínimo, essa foi a primeira vez que me senti tão bem comigo mesmo. A rotina tinha me feito esquecer que além de João Pedro, designer de 26 anos, eu também sou voluntario no hospital de crianças com câncer. Ela me fez esquecer do meu ótimo gosto musical - modéstia a parte. Como prova, a coleção de cd dos Beatles que eu tinha na prateleira da sala com os dois discos raros de vinil que consegui comprar após muito esforço rodando a cidade. Tinha esquecido que meus olhos são claros e que sou alto. Não lembrava de todas as bobagens que fiz com meus amigos quando eu era moleque. Não lembrava do ser magnífico que eu era.



Minha mulher, que já estava dormindo apesar de serem nove e meia da noite, quase acordou com o grito de felicidade que eu dei. Eu havia me reencontrado.
Você, caro leitor, por que não tenta você fazer como eu fiz? Por que não tenta fazer o mesmo que o pinguim? Tente ver em você, não os defeitos apontados pelo seu chefe e pelos colegas do trabalho que implicam com você, mas sim as qualidades daquele filho magnífico que sua mãe tanto se orgulha de ter.





Bernardo Moraes - T. 1103



4 comentários:

  1. O texto mostra em uma liguagem simples um dos sentimentos humanos: a vaidade.O mais intrigante é ver como o personaem se sente feliz em ver sua "boa aparencia" no expelho, e mais ainda como relaciona uma simples imagem de revista, a sua no espelho, provando uma semelhança de sentimentos entre um animal e o homem.

    ResponderExcluir
  2. Bernardo,
    Seu texto trouxe-me algumas reflexões, afinal, a mídia vende estereótipos a todo o momento. Grande parte da humanidade vive oprimida pelo que esperam dela, segue o rumo caótico da alienação. Entretanto, todos os seres são diferentes. Logo, são raros os que se encaixam no perfil de perfeição do “american life style”. Por isso, surgem anoréxicos e “ratos de academia”. Muitos vivem tentando se enquadrar e não percebem que a coisa mais bela da Terra é a diversidade!
    A nossa sociedade também vive em um ritmo frenético e são raros os momentos que temos, realmente, para relaxar. Existe um filosofo, o qual acredita que para alcançarmos a felicidade é necessário uma auto avaliação. Por isso, acho interessante identificar os defeitos, para que, assim, possamos melhorar. Mas, não melhorar, prioritariamente, para agradar pais, mães e professores. Devemos, sim, estar em harmonia com nós mesmos.
    Não devemos nos martirizar por nossos defeitos, mas acho interessante auto avaliar-se por inteiro e, assim, sermos felizes com o que pudermos ser :)

    ResponderExcluir
  3. Muito bom! Bê, gostei principalmente do final, que retrata uma realidade que é pouco falada. Nós temos qualidades, mas ao longo da vida nós vamos deixando-as de lado, porque a maioria das pessoas tendem a ver apenas os nossos defeitos e somos criticados. E é tanta crítica que às vezes esquecemos o ser magnífico que nós somos. Muito bem escrito. =)

    ResponderExcluir
  4. Não cabe a mim discordar de ninguém, muito menos tentar fazer com que minha opinião prevaleça, cabe a mim opiniar e questionar. Acho que dentro de todos nós há algo ''usável'', digamos assim. Acho simplesmente que cada um, do jeito que escolheu ser tem algo de bom dentro de si. Por mais fútil, vaidosa e caprichosa que essa pessoa seja, dentro dela de fato há algo a ser explorado. Muitas vezes, escondido, iludido e excluído pelas opiniões externas dos outros.
    O texto me trouxe a mente a sinceridade, particularmente comparado como achar ouro dentro da mina que você já conhece há tanto tempo, VOCÊ. Parar e se conhecer, antes que os outros que te conheçam. Saber quem é, antes que tentem te dizer e impor isso.
    O texto flui como água em dias de calor.

    ResponderExcluir