OS HERÓIS DA RESISTÊNCIA
Há homens que lutam um dia, e são bons.
Há outros que lutam um ano, e são melhores.
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons.
Porém há os que lutam toda a vida;
Estes são os imprescindíveis.
(Bertold Bretch)
Três e meia da tarde. Saio de casa. Hoje é uma sexta-feira, que como qualquer outra sexta-feira, encontra-se engarrafada de Botafogo à Ilha do Governador.
Cinco horas em ponto. Chego à escola e encontro um ambiente caótico na quadra, onde se misturam professores, alunos, técnicos de som, músicos e muitos curiosos. No centro do palco, avisto um Roosevelt, visivelmente nervoso, mas comandando o “sanatório geral” com a segurança de sempre. Ao mesmo tempo em que a banda ensaia a canção do Vandré, as meninas do sapateado tentam harmonizar mais ainda o seu número. Abaixo do palco, do nada, uma bailarina dança a nenhum som, o que viria a ser um dos momentos mais líricos da noite. Ao meu lado, ainda em cima do palco, dois alunos dizem seus textos. Olho e identifico os dois; são o Carteiro e o Poeta. Lá em baixo, no meio da quadra, aparece a Patrícia. Linda, descabelada, de olhos brilhantes, organizando o figurino de mais um grupo de alunas.
Seis horas. Saio dali bastante preocupada com o caos que reina na quadra da escola. Recolho os meus alunos do terceiro ano; ali, seria impossível ensaiar a apresentação do Festival de Poesia. Subo as escadas para a nossa salinha de aula, pensando que poderemos estar à beira de protagonizarmos um grande fiasco. Lá em cima, constato um problema: nem todos os alunos do terceiro ano poderão vir. Prontamente, a meninada que já havia chegado trata de entrar em contato com os colegas ausentes para terem certeza de quem viria realmente. Em seguida, eles mesmos remanejam os papéis e vão se responsabilizando pelas falas dos faltosos. Nesse momento, quando o desânimo começava a me atacar, alguma coisa me diz lá no fundo: “Vai dar certo! Eles vão brilhar”!
Sete e meia da noite. Desço com meu terceiro ano. Todos estão compenetrados em sua tradicional tarefa de apresentar o festival. Encontro uma quadra lotada de convidados: os pais, os alunos, os poetas, os jurados, a Maria Mazelo, os professores. Uma aluna, me olha nervosa e me diz que está sentindo o tal frio na barriga. Eu a acalmo, mas nada nem ninguém pode me acalmar nessa hora. Nem eu quero. A adrenalina é muita, e a sensação é intensa e maravilhosa. Escondo-me com meus alunos atrás do palco e tento descontraí-los e relaxá-los. Acho que consegui. Volto à quadra e sento no meu posto com o pessoal da técnica. O festival vai começar.
Oito horas da noite. Vera, nossa diretora, sobe ao palco e declara aberto o 27º Festival de Poesia da Escola Modelar Cambaúba, e aí a magia se faz. A primeira atração da noite já começa a anunciar que ninguém vai fazer feio. O coral dos pequeninos é abrilhantado pela participação da professora Paz Helena. Que lindo! As vozes doces das crianças, comandadas pelo professor de canto e combinadas com a da professora nos levam para o Nordeste do Brasil e nos mostram a desigualdade social. Logo em seguida, o grande presente da noite: O CARTEIRO E O POETA, numa releitura do professor Roosevelt. Meu Deus! O que foi aquilo? Uma sequência de cenas e de interpretações que nos deixam emocionados e surpresos com o talento da garotada. Uma bicicleta cruza a quadra diversas vezes e, a cada vez que isso acontece, traz com ela mais um poeta. As artes latina e americana ganham destaque neste festival, e três Pablos são homenageados: Neruda, Casals e Picasso. Poesia, música e pintura! Nas três, o grito em defesa dos que sofrem. Nossos poetas também não são esquecidos. Vinicius, João Cabral, Ferreira Gular e Chico Buarque ganham destaque nesta noite. Inesquecíveis são os Severinos de Maria; as sapateadoras que transformam Carmem, de Bizet , num delicioso exercício de sincronismo, que perpassou do passo doble ao samba no pé; a exibição da animação premiada VIDA DE MARIA; o violoncelista e o flautista, profissionais que arrasam ao executarem Villa Lobos; a bailarina suave e leve; os atores que interpretam o carteiro e os poetas; a banda dos meninos que acompanha o canto emocionado de todo o elenco. Durante o decorrer das cenas, lágrimas teimosas, surgem nos olhos dos professores de Português, Literatura, Redação, Inglês e Espanhol; conseqüência da sensação de dever cumprido. O terceiro ano aparece no palco trazendo a ousadia do RAP. Esses nossos apresentadores resistem bravamente às agruras de um único microfone para todo o grupo ao longo de todas as suas entradas. A eles, os meus parabéns e o meu agradecimento sincero. A noite finaliza com as premiações muito merecidas dos poemas concorrentes. Aos jovens poetas da Cambaúba, nossos parabéns!
Onze horas da noite. Lá vou eu, cruzando de volta a Linha Vermelha. Esqueço o perigo por estar sozinha e sigo em frente, totalmente entregue às lembranças da noite e, principalmente, às cenas de O CARTEIRO E O POETA. Corto o Rebouças e descortino a belíssima vista da Lagoa Rodrigo de Freitas que me traz uma conclusão. Não há como negar: o brilho da apresentação do 27º Festival de Poesia se deve em grande parte a dois grandes profissionais da casa: Roosevelt e Patrícia. Unidos na profissão e na vida, eles aproveitaram a oportunidade que lhes foi dada. E com suas matérias, fizeram parte efetiva do evento. Foi assim que transferiram para os alunos toda a garra e todo o amor que só os imprescindíveis sabem ter.
Catarina Schumann
Muito bom Catarina, adorei sua postagem.
ResponderExcluirNarração ótima!
Catarina, antes de mais nada gostaria de agradecer este maravilhoso texto que, com carinho, sintetiza aquele noite. Mas gostaria de salientar que "O carteiro e o poeta" apresentado ali foi uma obra coletiva, numa tentativa de colocar em prática Paulo Freire, educador que reivindicamos como modelo de educação para transformação.
ResponderExcluirNeste sentido, devemos dar crédito a imprescindíveis amigos: o pessoal da limpeza que não raro, saiu depois da hora para que pudessemos ensaiar; os inspetores que ajudaram a administrar o caos nas tardes de ensaios; o pessoal da teconologia da informação que nos ajudou a montar a estrutura; a Daiene da biblioteca que montou todos os slides e incansavelmente esteve conosco em todas as horas e agora já é membro permanente do projeto; os professores Anderson e o Rodrigo (Português e Música) que foram a vários ensaios e abrilhantaram com suas dicas e marcações; a Professora Cristina Belcastro que ajudou num dos ensaios e acreditou nesta aventura podendo realizar a ideia de mudança no formato do festival; a você que começou isto tudo comprando briga com o tema do festival; e, a minha companheira Patricia, parceira na profissão e na vida e que montou toda essa estrutura, em especial as danças do 3º ato. Sem contar, é claro, com os imprescindíveis alunos, que mais que atuar, estão ganhos para a possibilidade da construção de um novo mundo que, necessariamente, perpassa pela educação.
Beijos e muito obrigado pelo carinho. Aqui já fica o chamado para novas parcerias, uma vez que temos em comum a paixão pelas artes.
Rooseveltt.
Mesmo que meu tempo livre seja pouco, devido a minha dedicação ao Vestibular, não posso deixar de comentar aqui que esse Festival foi mais que poesia, foi também despedida. É verdade, o ano está chegando ao fim... É impossível não se emocionar com um texto como esse. Além de bem escrito, possui uma mensagem pra mim que é mais que clara: as palavras podem expressar momentos especiais. E isso é inspirador pra mim e para todos aqueles que viveram esse momento.
ResponderExcluirAfinal, nas derrotas ou vitórias, sempre teremos lembranças boas que nos darão força para continuar a seguir o caminho daquilo que é certo. E para guiar nossos caminhos temos compositores, pintores, poetas e professores.
Belo espetáculo!
Monique Cockrane